25 June 2010

Davi x Globo

Hoje foi um dia que, se não terá lá uma grande importância histórica, ficou marcado como aquele no qual algumas pessoas resolveram manifestar sua insatisfação contra um grande operador de mídia no Brasil. Através do Twitter elas resolveram passar o recado de que estão insatisfeitas com a hegemonia, com a programação pobre e com as ofertas de sonhos baratos globais. Uma emissora que pouco contribui para o desenvolvimento igualitário do país, do contrário, trabalha a favor de sua própria manutenção enquanto império das telecomunicações. Amiga de grupos conservadores, dos velhos políticos, das velhas práticas políticas e de uma democracia sem representação popular.


O "dia sem globo" foi uma manifestação que nasceu em resposta ao canal aberto de comunicação dos marinhos e sua tentativa de ditar como deveria ser a conduta do técnico da seleção brasileira de futebol na Copa. Os motivos da reprimenda global inspirou variados sites e blogs na internet. A manifestação conclamava as pessoas que usam Twitter a não assistir o canal durante as 24H do dia 25/06, boicotando a emissora justamente em um dia em que ela teria elevada audiência em virtude do jogo da seleção. Ao longo de toda esta semana a tag #diasemglobo foi bem citada no Twitter chegando a figurar entre os tópicos mais comentados em vários momentos. A empolgação quanto aos efeitos do protesto foi grande não só entre os usuários do Twitter mas também por parte de alguns veículos de mídia. Talvez tenha de fato assustado alguém. Afinal seria um ato bem à moda da era da internet onde era necessário tão somente apertar um botão de um controle remoto para que os efeitos fossem sentidos.

Contudo, entre os twitteiros a empolgação com a campanha ao longo deste dia ficou dividida entre aqueles que esperavam seu fracasso e os que apostavam em seu sucesso. Foi notável a quantidade de pessoas no twitter que criticavam a manifestação, desdenhavam do ato, faziam chacotas. O fato da tag não ter aparecido nos "trending topics" perdendo para personagens globais era um indicativo de que a adesão à campanha poderia não ter sido tão significativa como alguns esperavam e outros temiam. Ao saírem os resultados da pesquisa de audiência ficou aparente a larga vantagem que Golias teria. Mas informações estatísticas necessitam ser digeridas através de boa interpretação. É fato que a emissora obteve uma grande audiência, entretanto é inegável também que sua concorrente teve um aumento de cerca de 33% do seu "share". Coincidências? Os números da audiência também mostram um "mais do mesmo". A confirmação de que a televisão brasileira é centralizada, monopolizada por um único canal. Um grande absurdo se pensarmos que ela se mantém em um espaço público.

A despeito do "fracasso" da manifestação quanto a redução da audiência da Tv Golias avalio que o ato foi vitorioso. O primeiro sucesso foi mostrar que a insatisfação ainda leva brasileiros a se organizarem para manifestar contra o que lhes incomodam. Foi uma pequena fagulha. Contudo, quem sabe não surjam mais fagulhas, e quem sabe ainda se uma dessas futuras fagulhas não achem um substrato mais inflamável? Temos que ponderar também que são aproximadamente 50 anos de história de manipulação e lavagem cerebral contra uma organização rarefeita de 4 ou 5 dias. Considerem estes efeitos ao avaliar os números da audiência e pergunto: de quem foi o maior fracasso? Também não há como negar que a confrontação foi assimétrica. A análise de perdas e ganhos em um conflito desta natureza muda bastante, não? As notícias do "fracasso" da manifestação por parte de veículos de mídia como por exemplo em blogs da Veja e no Portal Exame foi para mim como o relato de um alívio de quem passou por um mal súbito; poderia ter sido um grande mal, mas passou. Ufa passou! Ou como a comemoração de vitória depois do time ter jogado mal, mas ter conseguido a vitória com um gol aos 45 minutos do segundo tempo. Não há como negar que a repercussão também foi importante, sendo feita inclusive fora do Brasil.

Outro fato interessante de notar foi a repercussão da manifestação dada pela imprensa nos dias anteriores (por exemplo aqui, aqui e aqui). Ficou claro que havia uma certa ansiedade por parte da mídia sobre os efeitos da campanha, esperavam que fosse um sucesso? Se sim porque apostaram? Por que dar importância a um movimento no qual não havia um grupo responsável por sua organização? Que entidade é essa que fracassou? São perguntas importantes a serem respondidas.

Finalmente reflito o que aconteceu com a juventude que deveria ser o caldeirão efervescente, o celeiro da revolta? Faço minhas conjecturas... estamos sofrendo os efeitos de uma "era de vazios"?